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3181 ciberataques por semana: o que fazer?
Os oradores Sérgio Silva e João Gaspar mostraram que a proteção começa na cultura, na contratação e na educação.

Outubro é o Mês Europeu da Cibersegurança, mas este ano trouxe mais do que conferências: ataques informáticos com impacto real em serviços públicos portugueses. Foi neste contexto que a WireAcademy realizou, a 29 de outubro, o seu 73.º workshop, com o tema “Cibersegurança: Confiança Digital”.
Foram mais de 630 profissionais da administração pública local e central presentes a debater os impactos e cuidados que a cibersegurança exige. Contamos com os oradores convidados Sérgio Silva, fundador e CEO da CyberS3c, e João Gaspar, Cybersecurity Manager na Siemens Portugal e responsável pelo programa juvenil da CIIWA.
Em cima da mesa, uma pergunta: o que pode cada entidade pública fazer, desde já, para proteger os serviços de que os cidadãos dependem?
Os números que explicam a urgência: Segundo um estudo da Check Point, cada organização em Portugal sofreu, em média, 3181 ataques por semana em setembro de 2026, mais 61% do que um ano antes. A inteligência artificial explica parte da aceleração, ao tornar as burlas mais credíveis. No setor público, o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) registou um aumento de 67% dos incidentes entre 2023 e 2024.
Uma questão de cultura e de responsabilidade
“A cibersegurança não é tecnológica. É cultural”, resumiu Sérgio Silva. Sem pessoas atentas e treinadas, nenhuma tecnologia chega, e formações de 45 minutos por ano não mudam comportamentos. A responsabilidade também precisa de dono: com o Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025), que transpôs a Diretiva NIS 2, os órgãos de gestão passam a responder diretamente e o responsável de segurança deve ser interno e autónomo face ao IT.
O Regulamento Europeu de Ciber-Resiliência obriga os fabricantes de produtos com elementos digitais a garantir a sua segurança ao longo de todo o ciclo de vida. As obrigações de reporte aplicam-se desde setembro de 2026 e as restantes a partir de dezembro de 2027. Uma câmara municipal não fabrica, mas compra muito: câmaras de videovigilância, sensores, semáforos, software. O efeito prático está, por isso, nos cadernos de encargos. O produto tem declaração de conformidade da UE? Durante quantos anos terá atualizações? Como se reporta uma vulnerabilidade?
Para Sérgio Silva, os fornecedores devem demonstrar maturidade com testes de intrusão independentes e capacidade de resposta.
Formar os cidadãos digitais de amanhã
Já o orador João Gaspar levou a conversa para onde a confiança digital começa: nas escolas. Com o apoio de várias câmaras municipais, o programa juvenil da CIIWA leva às turmas sessões práticas de uma hora, com jogos adaptados a cada idade: com quem partilhar cada informação, como construir uma palavra-passe forte, como pensar o risco comparando um meteorito com a falta do professor de Educação Física.
Cada aluno leva para casa uma banda desenhada e os professores recebem um dossier para manter o tema vivo. A lógica é a da reciclagem: o que as crianças aprendem na escola chega à mesa de jantar. No primeiro ano, o programa chegou a cerca de 1100 alunos e o livro já foi traduzido para alemão, espanhol e inglês.
Começar cedo tem uma razão: as crianças tendem a silenciar quando são vítimas, para não serem um problema em casa. E os adultos? Nas campanhas de phishing simuladas, quando muitos caem, o tema passa a ser falado só no corredor. Nas crianças é medo; nos adultos, vergonha.
O mesmo vale para a inteligência artificial. Tal como os professores avisavam que a Wikipédia podia ser uma fonte, mas não a única, também a IA deve ser usada com pensamento crítico, e esse acompanhamento cabe à escola e às famílias. Sobre a administração pública, João Gaspar reconheceu a evolução dos serviços digitais, como a Chave Móvel Digital, mas lembrou que risco zero não vai haver e que o caminho da sensibilização é de todos. As entidades interessadas em levar o programa às suas escolas podem contactar a CIIWA através do seu site.
Confiança que se constrói todos os dias
Nada disto é apenas técnico. Quando os balcões de uma câmara fecham, quem sente o impacto é o cidadão. Proteger os sistemas públicos é proteger a relação de confiança entre as pessoas e as instituições que as servem. A moderação deixou um desejo: que, daqui a trinta anos, os netos de hoje leiam o livro de João Gaspar e estranhem que alguém precisasse de explicar coisas tão óbvias.
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